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Hidratação na nutrição enteral: a importância da água na rotina de quem usa sonda

Quando a alimentação passa a ser feita por sonda, é comum que familiares e cuidadores concentrem toda a atenção na dieta enteral. Mas e a água?

 

Muita gente acredita que, como a fórmula já é líquida, ela sozinha já resolve toda a necessidade de hidratação da pessoa. Esse é um dos mitos mais comuns (e também mais perigosos) no cuidado domiciliar com nutrição enteral.

 

Hoje, vamos entender por que a água pura continua sendo indispensável, como oferecer a água na sonda enteral de forma correta, e quais sinais indicam que algo pode não estar bem.

 

A fórmula enteral substitui a água pura? Entenda a necessidade hídrica

A dieta enteral, seja artesanal ou industrializada, contém água em sua composição e contribui para o total de líquidos que a pessoa recebe ao longo do dia. Mas isso não significa que ela seja suficiente sozinha.

 

Assim como uma pessoa que se alimenta por via oral não sacia sua sede apenas com a comida do prato, quem recebe dieta pela sonda também precisa de água extra. A administração de água na sonda enteral deve ser feita separadamente, nos intervalos entre as dietas.

 

E como dimensionar essa necessidade? Uma estimativa geral da necessidade diária é de 30 a 35 ml de líquido por quilo de peso corporal para manutenção do equilíbrio hídrico. Confira alguns exemplos:

 

  • Paciente com 60 quilos: 1,8 a 2,1 litros de líquidos por dia
  • Paciente com 70 quilos: 2,1 a 2,45 litros de líquidos por dia
  • Paciente com 80 quilos: 2,4 a 2,8 litros de líquidos por dia

 

Considerando pessoas com 60 anos ou mais, para as mulheres recomenda-se o mínimo de 1,6 litro de líquidos por dia, e para os homens, pelo menos 2 litros – a menos que uma condição clínica específica exija uma abordagem diferente, como restrição hídrica em casos de insuficiência renal ou cardíaca.

 

Esses números são pontos de partida, não regras fixas! A necessidade real de cada pessoa deve ser calculada individualmente pelo nutricionista ou pela equipe de saúde responsável pelo paciente, considerando peso, idade, nível de atividade e condição clínica.

 

Além disso, vale lembrar que essa necessidade não é estática. Algumas condições aumentam a quantidade de água diária, como febre, calor intenso, maior atividade física, perdas aumentadas por diarreia ou vômito.

 

Ou seja, a quantidade de água na sonda enteral que era adequada ontem pode não ser suficiente hoje, se a pessoa cuidada estiver com febre, por exemplo, assim como aumentamos a ingestão de líquidos em situações parecidas.

 

Sinais de alerta de desidratação que o cuidador deve observar

Como identificar que algo não vai bem? Alguns sinais e sintomas costumam aparecer:

 

  • Sede
  • Dor de cabeça
  • Boca e lábios secos
  • Cansaço
  • Tontura
  • Sensação de estar "zonzo"
  • Eliminação de pouca urina, escura e concentrada
  • Olhos fundos e ressecados
  • Pele com aspecto frágil
  • Confusão mental

 

Um parâmetro simples e útil no dia a dia é observar a cor da urina. Em uma pessoa bem hidratada e clinicamente estável, a urina costuma ter coloração clara, próxima da palha. Se estiver amarelo-escura ou amarronzada, ou se a pessoa relatar sede, provavelmente há necessidade aumentar a oferta de água na sonda enteral.

 

Nenhum desses sinais isolados é uma prova definitiva de desidratação, mas quando dois ou mais aparecem juntos, é hora de considerar a possibilidade e buscar orientação. Nesse sentido, a avaliação clínica de um profissional de saúde é insubstituível diante de qualquer suspeita.

 

De qualquer forma, a falta de hidratação adequada, por tempo prolongado, pode favorecer complicações, como prisão de ventre, infecções urinárias e até o surgimento de lesões de pele, incluindo escaras.

 

Pessoas idosas, que representam boa parte de quem usa sonda em casa, estão ainda mais vulneráveis à desidratação, já que a sensação de sede tende a diminuir com a idade, os rins perdem parte da sua capacidade, e problemas de memória podem fazer a pessoa esquecer que não bebeu água há horas.

 

Isso é somado ao receio de incontinência urinária, que muitas vezes leva o próprio cuidador a reduzir por conta própria a oferta de líquidos, um erro que pode agravar o quadro. Dificuldades de engolir também aumentam esse risco, reforçando a importância da hidratação.

 

Como e quando oferecer água pela sonda de forma correta

A água deve ser oferecida separadamente da dieta, nos intervalos entre uma administração e outra da dieta enteral. Além disso, não deve ser misturada diretamente aos medicamentos, que têm suas próprias recomendações de diluição e horário.

 

Para infundir a água na sonda enteral, siga os passos de segurança:

 

  1. Posicionamento: mantenha a cabeceira elevada entre 30 e 45 graus, ou manter a pessoa sentada, conservando essa posição por 20 a 30 minutos após o término da infusão. Esse cuidado reduz o risco de refluxo e engasgos.
  2. Aplicação: a água pode ser administrada com o auxílio de uma seringa (geralmente de 20 ml), sempre de forma lenta, respeitando o ritmo de infusão que a sonda e a pessoa toleram.
  3. Volumes: quando é necessário complementar a hidratação em quantidades maiores, é possível administrar volumes entre 200 e 300 ml de água pela própria sonda, de forma relativamente simples e segura. Ainda assim, cabe à equipe de saúde definir o volume, a frequência e o momento ideal para cada pessoa.

 

Lavagem da sonda: mantendo o canal limpo e desobstruído

A lavagem da sonda é essencial para manter o cateter limpo e evitar entupimentos. Recomenda-se lavar a sonda com auxílio da seringa, com pelo menos 30 ml de água mineral ou potável antes e depois da administração da dieta em bolus, ou a cada 4 horas quando a dieta é administrada de forma contínua por bomba de infusão.

 

O mesmo cuidado vale para os medicamentos: a sonda deve ser lavada com água antes e depois da administração de cada remédio, evitando que resíduos se acumulem e obstruam a passagem. O volume a ser utilizado deve seguir orientação da equipe de saúde.

 

Esses flushes de água não são só um procedimento de limpeza: eles também compõem o total de líquidos que a pessoa recebe ao longo do dia. Por isso, é importante que não sejam pulados ou reduzidos por conta própria.

 

Alguns cuidadores, preocupados com episódios de incontinência urinária, acabam diminuindo os flushes de água como forma de "controlar" o problema. Mas essa prática pode comprometer seriamente a hidratação e não deve ser adotada sem orientação da equipe de saúde. Se a rotina de flushes for alterada, é fundamental que isso seja registrado e comunicado ao profissional responsável.

 

Manter esse hábito de lavagem regular também é uma das formas mais simples de prevenir o entupimento da sonda. Esse problema exige um manejo específico e cuidados próprios, que trataremos em um outro artigo desta série.

 

Cuidados com a qualidade e temperatura da água utilizada

A água usada tanto no preparo da dieta quanto na hidratação e na lavagem da sonda deve ser sempre mineral ou fervida por 15 minutos antes do uso. Esse cuidado reduz o risco de contaminação, especialmente importante porque a sonda oferece uma via direta ao trato digestivo.

 

Vale destacar que o tipo de água recomendada pode variar de acordo com a localização da sonda e as orientações da equipe de saúde ou da instituição que acompanha o caso.

 

– Em geral, para sondas que ficam posicionadas no estômago (como a nasogástrica ou a gastrostomia), em pessoas sem comprometimento imunológico, água fervida e resfriada ou mineral costumam ser consideradas adequadas.

– Já para pessoas imunocomprometidas, ou quando a sonda está posicionada além do estômago (alcançando o intestino delgado, como em sondas nasojejunais, PEJ ou jejunostomias cirúrgicas), o uso de água estéril pode ser indicado como medida de segurança adicional.

 

Como essa definição pode variar conforme a política de cada serviço de saúde, o ideal é sempre confirmar com o nutricionista, enfermeiro ou médico responsável qual é a orientação específica para o caso.

 

De qualquer forma, a água deve ser oferecida em temperatura ambiente, evitando extremos de frio ou calor. Fervê-la antecipadamente e deixá-la esfriar antes do uso, e não usá-la assim que retirar do fogo, é uma boa prática para não causar desconforto durante a administração.

 

De olho na higiene bucal

Por fim, mesmo quando a pessoa não recebe absolutamente nada pela boca, os cuidados com a saúde bucal continuam sendo importantes – inclusive porque a boca seca é, em si, um sinal de alerta de desidratação.

 

A higiene oral deve ser feita regularmente, com escovação dos dentes. O uso de hastes ou gazes umedecidas não substitui a escovação, servindo apenas para umedecer a mucosa.

 

Se a boca estiver muito seca, verificar com a equipe de saúde quais estratégias podem ser utilizadas para aliviar a sensação.

 

Em resumo

A dieta enteral nutre, mas não hidrata sozinha. Água é item separado na rotina, e o volume a ser ofertado deve sempre respeitar a orientação da equipe de saúde.

 

Fique de olho na cor da urina, na boca seca, no cansaço fora do comum. São sinais simples, mas que dizem muito sobre como está a hidratação de quem você cuida.

 

Pequenos hábitos, repetidos com constância, fazem toda a diferença no bem-estar e na segurança de quem depende desse cuidado todos os dias.

 

Referências:


Best, C., & Wilson, N. (2011). The importance of hydration in the enterally fed patient. Complete Nutrition, 11(3).

Bischoff, S. C., Austin, P., Boeykens, K., Chourdakis, M., Cuerda, C., Jonkers-Schuitema, C., ... & Pironi, L. (2022). ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical nutrition, 41(2), 468-488.

Dunn, S. (2015). Maintaining adequate hydration and nutrition in adult enteral tube feeding. British journal of community nursing, 20(Sup6a), S16-S23.

Guia multiprofissional de orientação para pacientes em uso de nutrição enteral domiciliar / Izabelle Silva de Araújo, Helânia Virginia Dantas dos Santos; Colaboração de Fabrício Rodrigo Pires Cagliari...[et al]. Petrolina: HEWAB, 2017.

Volkert, D., Beck, A. M., Cederholm, T., Cruz-Jentoft, A., Hooper, L., Kiesswetter, E., ... & Bischoff, S. C. (2022). ESPEN practical guideline: Clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clinical Nutrition, 41(4), 958-989.