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Vida ativa e nutrição enteral: como se organizar para passeios e viagens

Usar sonda para se alimentar não significa abrir mão de sair de casa, encontrar os amigos, visitar a família ou até planejar aquela viagem que estava na lista há tempos. Com organização, um bom planejamento e alguns cuidados simples, é possível viajar com nutrição enteral e manter uma vida social ativa, sem abrir mão da segurança e do conforto.

 

Neste artigo, você irá encontrar dicas práticas para montar o seu kit de passeio, transportar a dieta com segurança e administrar a nutrição enteral fora de casa, seja para um passeio rápido, seja em uma viagem de férias mais longa.

 

O planejamento da mala e do kit de nutrição do dia a dia

O primeiro passo para viajar com nutrição enteral com tranquilidade é o planejamento. Isso vale tanto para uma saída curta (como uma ida ao médico ou um almoço em família), quanto para viagens mais longas, nacionais ou internacionais.

 

Quanto mais cedo você começar a se organizar, melhor. No caso de viagens, o ideal é entrar em contato com o fornecedor da dieta e dos insumos com antecedência, pelo menos 3 a 4 semanas, para saber se é possível fazer a entrega no destino ou se será necessário levar tudo com você.

 

Algumas empresas fornecedoras costumam ter equipes especializadas que ajudam a planejar esse tipo de deslocamento, inclusive emprestando bombas de infusão reserva e adaptadores de tomada para outros países.

 

Além disso, um conceito importante para quem vai viajar com nutrição enteral é o chamado “estoque de segurança”: é recomendável levar consigo pelo menos alguns dias extras de fórmula e materiais, além do que será efetivamente usado durante a viagem, para cobrir imprevistos como atrasos de voo ou extravio de bagagem. Famílias que viajam com frequência recomendam calcular de 5 a 7 dias de reserva, dependendo da duração e do destino da viagem.

 

De qualquer forma, pesquise quais lojas e/ou farmácias existem na região para onde você irá. Ligue para verificar se esses estabelecimentos trabalham com a sua fórmula ou com fórmulas orais especializadas, em casos de emergências.

 

Vale também pensar na forma de administração da dieta antes de sair de casa. Se o paciente costuma usar bomba de infusão, mas consegue tolerar bem a administração por gravidade ou por seringa (o chamado método em bolus), pode valer a pena adaptar temporariamente o esquema para reduzir a quantidade de equipamentos a carregar durante o passeio.

 

Mas atenção: essa flexibilidade costuma valer para sondas gástricas; sondas jejunais geralmente dependem da bomba. Além disso, essa decisão deve ser sempre conversada com o nutricionista ou a equipe de saúde responsável, já que o método de administração leva em conta as necessidades clínicas de cada pessoa.

 

Transporte seguro dos materiais

Na hora de montar a mala, o segredo é distribuir os itens de forma estratégica. Se a viagem envolver mais de uma mala ou bolsa, divida os materiais de nutrição entre elas; assim, se uma se perder, você ainda terá parte dos materiais na outra.

 

Para passeios de algumas horas, o “kit de passeio” pode ser simples:

 

  • Um frasco com a quantidade de dieta programada;
  • Um frasco com água filtrada ou fervida;
  • O equipo ou a seringa;
  • Itens de higiene das mãos, como álcool em gel ou lenços umedecidos.

 

Dicas práticas que fazem diferença

– No caso de dietas caseiras, sempre que possível, prepare a dieta em casa, no horário mais próximo possível da administração, seguindo as mesmas regras de higiene usadas no dia a dia.

– As dietas industrializadas líquidas em sistema fechado, prontas para uso, dispensam preparo e manipulação, o que facilita a higiene em ambientes externos.

– Leve sempre água extra para higienizar a sonda antes e depois da administração da dieta e de eventuais medicamentos.

– Fórmulas industrializadas ainda fechadas costumam exigir refrigeração apenas quando expostas a temperaturas mais altas, já a fórmula de frascos abertos ou já preparados deve ficar sempre refrigerada. Uma bolsa térmica com rodinhas facilita o transporte e ainda sobra espaço para gelo extra. Em hospedagens, confirme já na reserva se há geladeira no quarto (ou acesso à da cozinha).

– Em viagens mais longas, especialmente as internacionais, é importante lembrar que alguns itens líquidos podem passar por verificações extras na segurança do aeroporto. Uma carta do médico ou do nutricionista, detalhando o uso da fórmula e dos equipamentos, costuma facilitar a passagem por esses pontos. Vale também levar cópias desses documentos, se possível traduzidas para o idioma do país de destino.

– Antes de viajar, é interessante saber onde fica o hospital ou serviço de saúde mais próximo do local de destino, para ter essa informação em mãos caso surja alguma necessidade. Tenha o endereço e os números de telefone à mão; esse cuidado extra traz mais segurança para toda a família durante o passeio.

 

Como administrar a dieta enteral em ambientes externos com conforto

Administrar a dieta fora de casa pode parecer desafiador no início, mas, com prática, se torna parte natural da rotina.

 

Muitos cuidadores e pacientes que já viajam com nutrição enteral há anos contam que, depois de algumas experiências, encontram o próprio jeito de se organizar em restaurantes, shoppings, carros e até durante voos.

 

Bancos de carro, mesas ao ar livre e até áreas reservadas em shoppings podem funcionar bem como ponto de apoio para a administração da dieta, desde que se preze pela higiene das mãos e dos materiais utilizados.

 

Pequenas adaptações no ambiente, como pendurar o frasco em um cabide, em uma haste retrátil ou até em um gancho improvisado, são recursos usados por muitas famílias para tornar a administração mais prática fora de casa.

 

Para quem usa bomba de infusão durante o passeio, vale verificar com antecedência a autonomia da bateria e levar um carregador ou uma bateria reserva, especialmente em trajetos mais longos. Antes de viajar, teste a autonomia da bateria em casa por alguns dias, para saber quantas infusões ela realmente aguenta. Em viagens internacionais, um adaptador específico para o aparelho é mais seguro do que um adaptador ou transformador genérico, que pode danificar a bateria.

 

Já para quem prefere o método em bolus (com seringa), a rotina tende a ficar mais simples de adaptar fora de casa, pois exige menos equipamentos.

 

Posicionamento do paciente e cuidados com a higiene fora de casa

Independentemente do local, alguns cuidados básicos continuam valendo fora de casa, exatamente como no ambiente doméstico:

 

  1. Mantenha o paciente sentado ou com a cabeceira elevada entre 30° e 45° durante a administração da dieta, para reduzir o risco de engasgos, vômitos ou aspiração.
  2. Lave bem as mãos antes de manusear a dieta e os materiais.
  3. Antes e depois da dieta, use água filtrada ou fervida para lavar a sonda, evitando que ela entupa.
  4. Evite deixar a fórmula em temperatura ambiente por tempo prolongado, principalmente em dias quentes (a bolsa térmica é uma aliada importante nesses momentos).
  5. Descarte com responsabilidade seringas, equipos e restos de fórmula, levando um saquinho para o lixo até encontrar um local apropriado.

 

Saiba mais: Passo a passo para manipular a dieta enteral em casa com segurança

 

A importância de manter os momentos de lazer e a convivência familiar

Viajar com nutrição enteral envolve, sim, um nível de planejamento maior do que a maioria das viagens em família. Mas isso não deve ser motivo para deixar de lado momentos de lazer, encontros com amigos, passeios ao ar livre ou até aquela viagem dos sonhos.

 

Relatos de famílias que vivem essa rotina mostram que, depois de organizadas algumas vezes, essas saídas passam a fazer parte do cotidiano de forma mais natural. Muitas dessas famílias já viajaram para diferentes cidades e países, participaram de passeios turísticos, fizeram cruzeiros e criaram memórias especiais, tudo isso conciliando os cuidados com a sonda.

 

Manter a vida social ativa tem um papel importante não só na qualidade de vida do paciente, mas também de toda a família e da rede de cuidado ao redor dele. O apoio de uma equipe multidisciplinar (com nutricionista, médico, enfermeiro, etc) contribui diretamente para que essas experiências aconteçam com mais segurança e menos ansiedade.

 

Em resumo

Viajar com nutrição enteral é, antes de tudo, uma questão de planejamento, prática e apoio da equipe de saúde. Com o kit organizado, os cuidados de higiene em dia e as informações certas em mãos, é possível sim aproveitar passeios, festas, viagens e todos os momentos que fazem parte de uma vida ativa e cheia de significado, tanto para o paciente quanto para quem cuida dele com tanto carinho.

 

Referências


Bischoff, S. C., Austin, P., Boeykens, K., Chourdakis, M., Cuerda, C., Jonkers-Schuitema, C., ... & Pironi, L. (2022). ESPEN practical guideline: Home enteral nutrition. Clinical nutrition, 41(2), 468-488.

Cambridge University Hospitals NHS Foundation Trust. Going on holiday with a child who has a gastrostomy / jejunostomy tube – advice for parents and carers. Cambridge University Hospitals. Approved February 7, 2024.

Guia de terapia nutricional enteral domiciliar / Adriana Servilha Gandolfo ... [et al.]. ; 2. ed. - São Paulo: Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de São Paulo, 2024.

Kerry & Mila: how we travel with a feeding tube. Talking Tube Feeding. Nestlé Health Science UK.

Resources: travel tips. The Oley Foundation. Updated December 2023.

Sullivan A. Traveling with tube feeds. National Foundation of Swallowing Disorders. Published April 21, 2015. Updated November 7, 2024.

Tube feeding tips: traveling. The Oley Foundation.