Os medicamentos análogos de GLP-1, conhecidos como as “canetas emagrecedoras”, têm transformado o tratamento da obesidade e do excesso de peso ao ajudarem no controle da fome, da saciedade e da ingestão alimentar. Porém, o melhor resultado acontece quando o período de uso da medicação é aproveitado para consolidar mudanças sustentáveis no estilo de vida, especialmente na alimentação, na prática de atividade física e na qualidade da rotina diária.1-4
Durante o tratamento, é comum que a fome diminua de forma importante. Muitas pessoas passam a comer menos naturalmente e relatam sensação de saciedade com volumes menores de alimento. Embora isso favoreça a perda de peso, também exige atenção: comer menos pode reduzir o consumo de proteínas, carboidratos, fibras, vitaminas e minerais, sendo esses nutrientes essenciais para o bom funcionamento do organismo.2,5,6
Por esse motivo, o foco não deve ser apenas “reduzir calorias”, mas melhorar a qualidade nutricional da alimentação. Por isso, existe uma preocupação crescente com a perda de massa muscular, ingestão inadequada de nutrientes e até risco de desnutrição em algumas pessoas que utilizam essas medicações sem acompanhamento adequado.4-8
A proteína merece atenção especial durante o tratamento. Isso porque a perda de peso pode vir acompanhada de perda de massa magra, especialmente quando a ingestão alimentar fica muito reduzida ou quando não há prática regular de exercício físico. Consumir quantidades adequadas de proteínas de alta qualidade e de forma distribuída ao longo do dia ajuda na preservação muscular, na manutenção da força e da funcionalidade e também contribui para maior saciedade. Ovos, iogurtes, leite e derivados, carnes magras, frango, peixe, tofu e feijões são exemplos de alimentos ricos em proteínas e, quando necessário, a suplementação pode fazer parte dessa estratégia.1-4,9,10
Outro ponto importante é o consumo adequado de fibras. Frutas, verduras, legumes, aveia, chia, linhaça, feijões e cereais integrais são fontes de fibras que contribuem para o funcionamento intestinal e a saúde metabólica. Além do baixo consumo durante o tratamento, os medicamentos aGLP-1 também estão associados a efeitos adversos comuns, como constipação, diarreia e alterações do hábito intestinal. Nesses casos, torna-se ainda mais importante planejar refeições nutritivas, com boa densidade nutricional e composição equilibrada. O consumo adequado de fibras, especialmente solúveis, pode ajudar a melhorar a consistência das fezes e favorecer o funcionamento intestinal adequado, mas o aumento do consumo deve ser gradual e acompanhado de hidratação adequada para melhor tolerância.2-4
A hidratação também costuma precisar de atenção. Com menos fome e menos volume alimentar, algumas pessoas passam a beber menos líquidos sem perceber. Pequenas estratégias práticas, como manter uma garrafa de água por perto e consumir líquidos ao longo do dia, ajudam a prevenir sintomas como constipação, fadiga e mal-estar.11
Além da alimentação, o exercício físico é considerado uma das principais ferramentas para preservar saúde muscular e metabólica durante a perda de peso. Exercícios de força, como a musculação, têm papel importante na manutenção da massa muscular. Caminhadas, bicicleta, dança e outras atividades aeróbicas também contribuem para melhora cardiovascular, disposição e manutenção do peso no longo prazo.9-13
Mudanças sustentáveis de comportamento são fundamentais durante o tratamento medicamentoso. Isso porque o organismo pode apresentar adaptações metabólicas após grandes perdas de peso, favorecendo recuperação ponderal quando hábitos saudáveis não são mantidos. Por isso, a continuidade da rotina alimentar equilibrada, da prática de exercícios e do acompanhamento profissional segue sendo parte essencial do cuidado, mesmo após o uso do medicamento.12,13
Mais do que um período de emagrecimento, o uso dos aGLP-1 pode ser encarado como uma oportunidade de reorganizar hábitos e construir uma relação mais equilibrada com alimentação, exercício físico e saúde.
Referências:
1. Johnson BVB, et al. Dietary supplement considerations during glucagon-like peptide-1 receptor agonist treatment: A narrative review. Obesity Pillars. 2025;16:100209.
2. Sievenpiper JL, et al. Nutritional and lifestyle supportive care recommendations for management of obesity with GLP-1-based therapies: An expert consensus statement using a modified Delphi approach. Obesity Pillars. 2026;17:100228.
3. Mozaffarian D, et al. Nutritional priorities to support GLP-1 therapy for obesity: A joint advisory from the American College of Lifestyle Medicine, the American Society for Nutrition, the Obesity Medicine Association, and the Obesity Society. Obes Pillars. 2025;15:100181.
4. Butsch WS, et al. Nutritional deficiencies and muscle loss in adults with type 2 diabetes using GLP-1 receptor agonists: A retrospective observational study. Obes Pillars. 2025;15:100186.
5. Ben-Porat T, et al. Nutritional Challenges of Incretin-Based Obesity Management Medications: Implications for Clinical Practice. Adv Nutr. 2025;16(11):100522.
6. Fallows E. Malnutrition with use of GLP-1 agonists is an underestimated real world harm. BMJ. 2025;390:r1512.
7. Almandoz JP, et al. Nutritional considerations with antiobesity medications. Obesity (Silver Spring). 2024;32(9):1613-1631.
8. Johnson B, et al. Investigating nutrient intake during use of glucagon-like peptide-1 receptor agonist: a cross-sectional study. Front Nutr. 2025;12:1566498.
9. Grosicki GJ, et al. Sculpting success: the importance of diet and physical activity to support skeletal muscle health during weight loss with new generation anti-obesity medications. Curr Dev Nutr. 2024;8(11):104486.
10. Mechanick JI, et al. Strategies for minimizing muscle loss during use of incretin-mimetic drugs for treatment of obesity. Obes Rev. 2025;26(1):e13841.
11. Al-Najim W, et al. Unintended Consequences of Obesity Pharmacotherapy: A Nutritional Approach to Ensuring Better Patient Outcomes. Nutrients. 2025;17(11):1934.
12. Zagury RL, et al. Multimodal strategy to protect lean mass in people using semaglutide for obesity – case report. Int J Nutrology. 2025;18(3):e25302.25302.
13. Minnetti M, et al. The Integration of Lifestyle Modification Advice and Diet and Physical Exercise Interventions: Cornerstones in the Management of Obesity with Incretin Mimetics. Obes Facts. 2025:1-16.
14. Knuth ND, et al. Metabolic adaptation following massive weight loss is related to the degree of energy imbalance and changes in circulating leptin. Obesity (Silver Spring). 2014;22(12):2563-2569.
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